terça-feira, 17 de agosto de 2021

Meu livro. O Tempo e o Caos que Somos (parte 1)

Introdução

Este é um ensaio de filosofia. Não é um ensaio dentro
dos rigores acadêmicos, tampouco tem a pretensão de
refutar argumentos, de confrontar opositores, ou de
criticar alguma corrente filosófica. Mas tem-se a intenção
de fazer agenciamentos, expandir potências, encontrar o
Caos, rizomatizar os campos, desterritorializar os espaços,
enfim, fazer da aventura do pensamento uma singularidade
monadológica, promover acontecimentos incorporais,
sempre tendo em vista o paradoxo do ser, mas além de
tudo, produzir tempo, ou melhor, produzir sínteses pura
do tempo. Sim, o tempo é aqui o verdadeiro problema
frente aos falsos problemas que cercam o pensar. Esses
falsos problemas são de ordem da representação, da
ordem do Bem, da ordem da razão, da consciência, da
“bela alma”, da identidade, da transcendência.
O espaço deste ensaio é o da repetição. Calma, caros
companheiros leitores, que iremos simplificar ao máximo a
explicação de todos esses termos assombrosos que possam
soar desconexos por aqui. A repetição de instantes que se
fazem e se desfazem, eis a face do caos, que em filosofia
vai aparecer ora como simulacros de profundidade, ora
como diferença pura de superfície. Você, espertíssimo
leitor, deve estar se questionando inflamavelmente que
cargas d’água é isso que estamos dizendo? Respondo:
estamos flertando com o pensamento do filósofo Gilles
Deleuze. Isso, vamos ter sim que dar uma pequena chave
do castelo deleuzeano como arte introdutória para que possamos, você e eu, falarmos a mesma língua. Mas enfim,
esse simulacro de profundidade que mais se parece com
a queda dos anjos, com as profundezas dos oceanos, com
o meio espacial do Demiurgo do Timeu Platônico, que
flerta com a queda na toca do coelho da personagem Alice
de Lewis Carroll, é aqui o nosso ponto de partida. Aqui é
o local dos desejos, dos afetos, dos infinitos, dos instantes
que Nietzsche irá promover em seu eterno Retorno. Se
nos remetermos para uma antropologia forte, chegaremos
a essa reflexão: todo homem primitivo tem sede, logo vai
em busca da água para saciar sua sede. A sede significa
o desejo; a água significa o meio e a socialização para se
chegar a um fim; portanto, o “saciar da sede” é o fim
exterior e metafísico para onde se vai todo o desejo. O
homem primitivo tem múltiplos desejos e meios simples
e direto para se chegar a satisfação. O problema é que
esse primitivo vai ser obrigado a socializar-se à medida
que a sociedade (o beber da água) vai se modernizando e
tornando esse meio tecnicista demais. Inverte-se a posição
do múltiplo.
O homem moderno, agora, tem desejos forçosamente
simplificados e meios em demasia, cujos fins (matar a
sede) não mais serão absolutos e não mais se realizarão.
Voltaremos, talvez, com mais precisão a esta digressão
antropológica – vamos associar nosso filósofo Rousseau,
mas também Schopenhauer, Nietzsche – para didatizar os
fatos aqui linkados, mas antes, era nossa intenção comparar
este nosso ensaio àquele ser primitivo com a condição de
termos desejo (sede) mas sem a necessidade de um fim absoluto: uma sede que não necessita de água; uma sede
em si mesma, um desejo em si mesmo. Talvez tenha sido
esse o real projeto do deus artesão Demiurgo, no Timeu:
Eu quero falar da origem do mundo, eu quero falar do
Demiurgo. Esse artesão que, ao criar o mundo, se utiliza
de duas fórmulas: o MEIO ESPACIAL e as FORMAS
INTELIGÍVEIS. O meio espacial é puro caos, disforme,
a-linguístico, sem identidade, puro instante. As formas
inteligíveis são perfeitas, ordenadas, limitada, racional.
Infelizmente Platão recorre à submissão do meio espacial
frente às formas inteligíveis. Mas aqui iremos reverter essa
construção para libertar o caos das amarras da razão. Aqui,
o fantasmagórico, disforme, o esquizofrênico subirão à
superfície (corpo socializado). Não sairemos da caverna,
pois as sombras, os simulacros, se tornaram modelos, se
tornaram diferença.
 Seguiremos aqui, como já anunciamos acima, caríssimo
leitor, a filosofia de Gilles Deleuze, bem como o filósofo
e professor Claudio Ulpiano, que muito dedicou sua vida
a pensar a filosofia de Deleuze e Felix Guattari. Estes são
a minha fonte de inspiração, minha contemplação. Toda
a reflexão aqui é oriunda de um devir-negro no mundo,
de um poeta-professor-subversivo. Os textos aqui não
flertarão com identidades, mas com A-subjetividades. É
um ensaio aos moldes de uma canção; é uma Physis de
Heráclito e Demócrito e não um logos de Parmênides
e de Aristóteles. Descendo para os afetos: este ensaio
é de um negro, pobre, morador de bairro de periferia
que foi sabotando a vida, no sentido não de prejuízos, mas de interrupções de serviços. Alguém que sabotou o
destino cuja o caminho mais fácil era o de ser operário
da companhia Siderúrgica Nacional; depois, sabotei o
sonho de ser poeta e a tão sonhada faculdade de Letras.
Todos temos alguma vez de passar a nossa vida por esse
processo abortivo, por esses desconfortos, por esses
estranhamentos. No meu caso, andar na contramão foi
necessário – e por que não contingente? – para me tornar
o que na verdade nunca deixei de ser.

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